" O homenzarrão  conduzia  —  lastimável  espetáculo!  — um lobo enorme, belo, mas  terrivelmente  macilento  e  com  um  olhar  tímido  de  escravo,  atado por um cordel,  como  um  cão.  Era ao mesmo tempo repulsiva e interessante, horrível e intimamente  agradável,  a  visão  daquele  brutal  domador  fazendo  com  que  o  nobre  e vergonhosamente  dócil  animal  realizasse toda a sorte de truques e  sensacionais cambalhotas. O homem,  meu  sósia diabolicamente  distorcido,  conseguira  domar  o  lobo  de  maneira extraordinária.  A besta  obedecia  atentamente  a  todas  as  suas  ordens,  reagia caninamente  à  chamada  e  ao  estalido  do  látego,  punha-se  de  joelhos,  fingia-se  de morto,  imitava  uma  menina  carregando  na  boca  um  pãozinho,  um  ovo,  um  pedaço  de  carne,  uma  cesta,  tudo  com  muito  cuidado  e  obediência;  e  chegava  mesmo  a  apanhar do chão com os dentes o  látego que o  domador deixava cair e o levava na boca até ele, abanando  a  cauda,  de  uma  maneira  insuportavelmente  submissa.  Puseram diante do lobo um coelho e, depois, um  cordeiro  branco.  É verdade que o lobo arreganhou  os dentes  e  deixou  cair  uma  saliva  de  convulso  desejo,  mas  nem  sequer  tocou  nos  animais,  tendo  apenas  saltado  sobre  eles  com  elegantes  movimentos,  ao  lhe  ser  assim ordenado,  estendendo-se  entre  o  coelho  e  o  cordeiro  assustados,  abraçando-os  com  as  patas  dianteiras  e  for mando  com  eles  um  grupo  comovedoramente  familiar.  Em seguida comeu  um  tablete  de  chocolate  das  mãos  do  domador.  Era um tormento contemplar até que grau  aprendera  a  renegar  sua  natureza  aquele  pobre  lobo  e  senti me arrepiarem  os  cabelos.  Houve  alguma  compensação,  entretanto, não  só  para  o  espectador horrorizado quanto para  o  próprio  lobo,  quando  chegou  a  segunda  parte  do  programa.  Após  aquela refinada  exibição  de  domesticidade  animal  e  logo  que  o  homem  acabou  de  inclinar-se numa  reverência  triunfante  sobre  o  grupo  do  lobo  e  do  cordeiro,  os  papéis  de  súbito inverteram-se. Meu sósia domador pôs imediatamente o látego aos pés do lobo com  muita reverência  e começou a  tremer, a  mover-se e a  olhar timidamente como fizera antes  o  animal.  Mas  o  lobo  lambia  o  focinho  sorridente,  seu  constrangi mento  desapareceu,  os olhos  fuzilaram  e  todo  o  seu  corpo  se  retesou  e  floresceu  ao  recobrar  sua  natureza selvagem. Agora  o  lobo  mandava  e  o  homem  obedecia.  A um comando,  caiu  de  joelhos, imitou  o  lobo,  deixou  pender  a  língua  e  rasgou  as  vestes  do  corpo  a  ranger  os  dentes.  Andou sobre duas e quatro  patas,  obedecendo  às  ordens  do domador  de  homens;  imitou  as  mocinhas, fingiu-se  de  morto,  deixou  que  o  lobo  o  cavalgasse,  levou  o  látego  nos  dentes  à  mão  do domador.  Com  a  destreza  de  um  cão  submeteu-se  a   toda   sorte  de  humilhações  e   de perversidades.  Uma  jovem  bela  aproximou-se  do  palco,  foi  até  junto  ao  homem  domesticado, acariciou-lhe  a  barbela  e  roçou  o  seu  rosto  contra  o   dele,  mas  o  homem  continuou  posto  em  quatro  patas,  em  seu  papel  de  animal.  Sacudiu a cabeça  e  começou  a  mostrar  os  dentes   à "jovem,  de  maneira  tão  ameaçadora  e  lupina,  que  a  moça  acabou  por  fugir.  Deram-lhe chocolate,  mas ele  o cheirou  e deixou de  lado.  E por  último lhe trouxera m o  cordeiro  branco e o  gordo  coelho  malhado,  e  o  homem  amestrado  executou  de  maneira  prodigiosa  sua  última imitação  do  lobo.  Agarrou  com  unhas  e  dentes  os  apavorados  animais  arrancando-lhes pedaços  de  pele  e  carne,  abocanhou  uivando  as carnes  vivas e bebeu-lhes o sangue quente, com os olhos embriagados  de prazer."


O Lobo da Estepe - Hermann Hesse